Seu Filho Precisa Mesmo Estar Aprendendo o Tempo Todo? A Pressa de Ensinar na Primeira Infância
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Seu filho tem quatro anos.
O filho de uma amiga já escreve o próprio nome.
Outra criança da mesma idade começou inglês.
No Instagram, você vê uma mãe mostrando o filho lendo palavras.
Na escola, alguém comenta que determinada criança "está muito adiantada".
E, sem perceber, surge aquela pergunta incômoda:
Será que estou estimulando meu filho o suficiente?
Talvez você comece a procurar atividades. Compra jogos educativos. Pesquisa cursos. Tenta aproveitar cada momento para ensinar alguma coisa.
A intenção é maravilhosa: queremos oferecer aos nossos filhos todas as oportunidades que pudermos.
Mas existe uma pergunta que fazemos muito pouco:
Uma criança precisa realmente estar aprendendo algo dirigido o tempo todo?
Talvez nossa preocupação em preparar as crianças para o futuro esteja fazendo com que tenhamos dificuldade de permitir que simplesmente vivam a infância.
A primeira infância virou uma corrida?
Nos últimos anos, aprendemos muito sobre a importância da primeira infância para o desenvolvimento infantil.
Isso foi uma conquista.
Hoje sabemos que os primeiros anos são fundamentais para o desenvolvimento da linguagem, das relações, das emoções, da motricidade e de inúmeras capacidades cognitivas.
O problema começa quando transformamos essa informação em ansiedade.
Se os primeiros anos são tão importantes, pensamos:
"Então preciso aproveitar cada minuto."
E começa a corrida.
Inglês.
Natação.
Ballet.
Futebol.
Musicalização.
Atividades pedagógicas.
Aplicativos educativos.
E, quando finalmente sobra uma tarde sem programação, alguns pais quase sentem culpa.
Mas desenvolvimento infantil não significa ocupação permanente.
Nem toda aprendizagem parece aprendizagem
Uma criança sentada no chão tentando encaixar uma tampa em uma caixa está aprendendo.
Uma criança que pergunta pela décima vez "por quê?" está aprendendo.
Quando duas crianças discutem sobre quem ficará com um brinquedo, existe ali uma difícil aprendizagem sobre convivência.
Quando seu filho tenta colocar a camiseta e coloca a cabeça no lugar errado, também está aprendendo.
Até quando observa uma formiga carregando uma folha no quintal existe investigação.
O problema é que nós, adultos, aprendemos a reconhecer como aprendizagem aquilo que produz um resultado visível.
Uma letra escrita.
Um número reconhecido.
Uma palavra em inglês.
Uma atividade concluída.
Mas grande parte das aprendizagens fundamentais da primeira infância acontece sem folha, lápis, certificado ou aplauso.
"Mas o filho da minha amiga já sabe..."
Talvez poucas frases produzam tanta ansiedade parental quanto essa.
As comparações começam cedo.
Quem andou primeiro?
Quem falou primeiro?
Quem largou a fralda?
Quem reconhece as letras?
Quem lê?
E a infância vai sendo transformada em uma sequência de pequenas competições que as próprias crianças sequer sabem que estão disputando.
É importante acompanhar o desenvolvimento e procurar orientação profissional quando existem dúvidas ou sinais que mereçam atenção.
Isso é muito diferente de esperar que todas as crianças se desenvolvam exatamente no mesmo ritmo.
Desenvolvimento não é uma corrida com linha de chegada igual para todos.
Seu filho não precisa ser o primeiro.
Precisa encontrar condições adequadas para desenvolver suas possibilidades.
Existe uma diferença entre estimular e pressionar
Estimular é oferecer oportunidades.
Pressionar é transformar oportunidades em expectativas.
Você pode disponibilizar livros sem exigir que uma criança pequena leia antes do tempo.
Pode conversar sobre números enquanto cozinha sem transformar o jantar em uma aula de matemática.
Pode oferecer materiais para desenhar sem perguntar:
"Mas o que é isso que você desenhou?"
Pode matriculá-la em uma atividade porque ela gosta, e não porque acredita que aquilo será importante para o currículo dela daqui a quinze anos.
Na primeira infância, experiências significativas importam muito.
Mas elas não precisam ter aparência de aula.
O brincar livre está desaparecendo?
Talvez devêssemos observar nossas agendas infantis.
Existe espaço vazio nelas?
Espaço para a criança decidir o que fazer?
Para inventar uma brincadeira?
Para começar algo e abandonar cinco minutos depois?
Para mexer na terra?
Para construir uma cabana com almofadas?
Para dizer:
"Mãe, estou entediado."
E ouvir:
"Você vai encontrar alguma coisa para fazer."
O tédio não precisa ser visto imediatamente como um problema.
Quando não entregamos uma solução pronta, a criança precisa procurar dentro e ao redor de si alguma possibilidade.
É aí que podem aparecer criatividade, iniciativa e imaginação.
Se o adulto organiza permanentemente a experiência infantil, quando a criança aprenderá a organizar a própria experiência?
Talvez a ansiedade seja mais nossa do que deles
Essa é uma reflexão desconfortável.
Às vezes não estamos acelerando nossos filhos porque eles precisam.
Estamos acelerando porque temos medo.
Medo de que fiquem para trás.

Medo de não oferecer oportunidades suficientes.
Medo de que outra criança esteja mais preparada.
Medo de sermos julgadas como mães pouco presentes ou pouco estimuladoras.
E existe ainda o enorme mercado construído ao redor dessa insegurança.
Sempre haverá alguma coisa nova prometendo desenvolver mais rapidamente a inteligência, a linguagem, a coordenação ou alguma habilidade do seu filho.
Isso não significa que cursos, brinquedos educativos ou atividades extracurriculares sejam ruins.
A pergunta é outra:
Meu filho precisa disso ou eu estou tentando acalmar minha própria ansiedade?
Preparar para o futuro também é permitir viver o presente
Queremos crianças preparadas para um mundo competitivo.
Mas o adulto do futuro também precisará de criatividade.
Autonomia.
Flexibilidade.
Capacidade de resolver problemas.
Tolerância à frustração.
Curiosidade.
Relacionamento.
E muitas dessas capacidades começam a ser construídas justamente naquelas experiências que parecem simples demais aos nossos olhos adultos.
Brincar.
Esperar.
Tentar.
Errar.
Inventar.
Conversar.
Conviver.
Não saber o que fazer.
E descobrir.
Seu filho não precisa chegar primeiro
Talvez você esteja fazendo muito mais pelo desenvolvimento do seu filho do que imagina.
Na história que vocês leem antes de dormir.
Na conversa dentro do carro.
Quando espera alguns segundos antes de fazer por ele aquilo que ele está tentando fazer sozinho.
Quando permite que brinque sem transformar a brincadeira em atividade pedagógica.
Quando oferece limites.
Quando responde a uma pergunta.
E também quando simplesmente está perto.
A primeira infância não precisa ser uma preparação acelerada para a próxima etapa.
Ela é uma etapa da vida que possui valor em si mesma.
Seu filho terá muitos anos para aprender conteúdos, cumprir metas, competir, produzir e apresentar resultados.
Mas terá apenas alguns poucos anos para ser uma criança pequena.
Talvez nossa responsabilidade não seja fazer com que chegue ao futuro antes dos outros.
Talvez seja oferecer bases suficientemente fortes para que, quando o futuro chegar, ele tenha curiosidade para aprender, segurança para tentar e autonomia para encontrar seu próprio caminho.
E isso não se constrói com pressa.

Para refletir
Antes de acrescentar mais uma atividade à rotina do seu filho, experimente fazer três perguntas:
Ele precisa disso?
Ele gosta disso?
Ainda existe tempo livre para ele simplesmente ser criança?
As respostas talvez nos ensinem tanto sobre nós mesmas quanto sobre nossos filhos.
Shirlaine Paduin
É educadora há mais de 40 anos, Mestra e doutoranda em Educação, psicanalista e pesquisadora do desenvolvimento infantojuvenil. Sua trajetória reúne educação, gestão escolar e trabalho com crianças, adolescentes, famílias e educadores. Mãe de três filhos e idealizadora do projeto Realidade de Mãe, escreve sobre desenvolvimento humano, maternidade, relações familiares e os desafios reais de educar.
































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