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O QUE SEU FILHO PRECISA ANTES DOS 6 ANOS (E QUASE NINGUÉM CONTA AOS PAIS)

  • há 22 horas
  • 5 min de leitura

mãe e filho brincando

Na primeira parte desta série, conversamos sobre por que a primeira infância é uma etapa tão importante para o desenvolvimento humano. Agora vem uma pergunta ainda mais prática:


Afinal, o que uma criança realmente precisa antes dos 6 anos?


Talvez a resposta surpreenda.

Ela não precisa saber ler aos quatro anos.

Não precisa ter uma agenda cheia de atividades.

Não precisa frequentar todos os cursos que você puder pagar.

E certamente não precisa chegar ao Ensino Fundamental com a infância já transformada em uma corrida por desempenho.

Antes dos 6 anos, seu filho precisa aprender muitas coisas. Mas algumas das mais importantes não cabem em uma apostila, não aparecem em uma prova e dificilmente poderão ser medidas por uma nota.

É sobre essas aprendizagens invisíveis — e fundamentais — que precisamos conversar.



ANTES DOS 6 ANOS, SEU FILHO PRECISA SE SENTIR SEGURO


Antes de explorar o mundo, a criança precisa sentir que existe um lugar seguro para onde pode voltar.

Essa segurança começa nas relações.

Quando uma criança chora e encontra acolhimento, quando sente medo e encontra um adulto disponível, quando erra e percebe que continua sendo amada, vai construindo pouco a pouco uma compreensão muito importante:


"Eu posso confiar."


Isso não significa impedir toda frustração.

Muito pelo contrário.

Uma relação segura permite que a criança enfrente pequenas frustrações porque sabe que não estará sozinha diante delas.

Proteger não significa retirar todas as pedras do caminho.

Significa estar suficientemente perto enquanto ela aprende a atravessá-las.



SEU FILHO PRECISA BRINCAR — MUITO


Talvez esta seja uma das mensagens mais importantes sobre a primeira infância:


Brincar não é intervalo da aprendizagem. Brincar é aprendizagem.



criança desenvolvendo autonomia por meio da brincadeira na primeira infância

Quando uma criança empilha blocos e a torre cai, ela experimenta causa e consequência.

Quando brinca de casinha, organiza simbolicamente situações que observa no mundo.

Quando inventa personagens, desenvolve imaginação e linguagem.

Quando precisa dividir um brinquedo, começa a compreender negociação, espera e convivência.

E quando brinca livremente, sem um adulto determinando cada movimento, também aprende a tomar decisões.

Por isso, uma infância excessivamente organizada pode ter um custo que nem sempre percebemos.

Se todos os minutos da criança forem preenchidos por atividades dirigidas, quando haverá espaço para ela inventar?



SEU FILHO PRECISA OUVIR "NÃO"


Aqui começa uma conversa que nem sempre é confortável.

Amar uma criança não significa evitar que ela se frustre.

Seu filho também precisa descobrir, antes dos 6 anos, que nem todos os desejos serão atendidos imediatamente.

Precisa esperar.

Precisa dividir.

Precisa compreender limites.

Precisa descobrir que existem outras pessoas no mundo.

É claro que uma criança pequena pode chorar diante de um "não". Isso não significa necessariamente que o limite foi inadequado.

A frustração, quando compatível com a idade e acompanhada por um adulto acolhedor, faz parte do desenvolvimento.

Talvez uma das tarefas mais difíceis da parentalidade seja justamente esta:


Suportar a frustração do filho sem acreditar que precisamos eliminá-la imediatamente.



SEU FILHO PRECISA CONVERSAR COM VOCÊ


Em tempos de telas, brinquedos tecnológicos e conteúdos educativos disponíveis a qualquer momento, existe uma ferramenta extraordinária para o desenvolvimento infantil que continua sendo gratuita:


A conversa.


Converse durante o banho.

Conte o que está fazendo enquanto prepara uma refeição.

Pergunte sobre a brincadeira.

Leia histórias.

Escute aquelas explicações intermináveis que uma criança pequena consegue dar sobre algo aparentemente simples.

A linguagem se desenvolve nas interações.

Mas há algo ainda maior acontecendo.

Quando você escuta uma criança, transmite uma mensagem silenciosa:


"O que você pensa importa."


E isso também participa da construção da autoestima.



SEU FILHO PRECISA FAZER ALGUMAS COISAS SOZINHO


Na pressa cotidiana, é muito mais rápido fazer pela criança.

Vestir.

Guardar.

Buscar.

Organizar.

Resolver.

Mas aquilo que economiza alguns minutos hoje pode retirar uma oportunidade importante de desenvolvimento.

A autonomia começa em pequenas experiências.

Guardar um brinquedo.

Tentar colocar o sapato.

Levar o próprio copo.

Escolher entre duas roupas adequadas.

Ajudar em pequenas tarefas da casa.

Provavelmente ela fará mais devagar.

Talvez derrube.

Talvez coloque errado.

Talvez você precise refazer depois.

Mas existe uma diferença enorme entre uma criança pensar:


"Minha mãe faz por mim"


e descobrir:


"Eu consigo tentar."



SEU FILHO PRECISA DE TÉDIO TAMBÉM


Sim, tédio.

Não precisamos oferecer entretenimento durante todo o tempo.

Quando uma criança diz "não tenho nada para fazer", nossa reação imediata costuma ser encontrar uma atividade.

Talvez não precisemos.

O espaço vazio também pode produzir criatividade.

É justamente quando não existe uma programação pronta que a criança precisa imaginar, procurar, inventar e decidir o que fazer.

Nem todo silêncio precisa ser preenchido.

Nem todo tédio precisa ser resolvido.



E, PRINCIPALMENTE, SEU FILHO PRECISA DE VOCÊ — MAS NÃO DE VOCÊ PERFEITA


Talvez aqui esteja o ponto mais importante.

Depois de ler sobre desenvolvimento infantil, algumas mães começam a pensar:


"Será que fiz tudo errado?"


Não é essa a proposta.

Crianças não precisam de mães perfeitas.

Precisam de relações suficientemente seguras, consistentes e afetivas.

Você vai perder a paciência algumas vezes.

Vai estar cansada.

Vai dizer algo que gostaria de não ter dito.

Vai precisar trabalhar quando gostaria de ficar.

Em alguns dias, vai recorrer à televisão porque simplesmente não consegue mais brincar.

Isso é vida real.

O desenvolvimento de uma criança não depende de uma mãe que acerta o tempo inteiro.

Também existe aprendizagem quando um adulto reconhece um erro, pede desculpas e reconstrói a relação.



TALVEZ ESTEJAMOS PREPARANDO DEMAIS AS CRIANÇAS PARA O FUTURO


Queremos oferecer oportunidades.

Queremos uma boa escola.

Queremos idiomas.

Tecnologia.

Esportes.

Cursos.

E não há nada de errado nisso.

Mas, na tentativa de preparar nossos filhos para o futuro, precisamos tomar cuidado para não ocupar completamente o presente.

Antes dos 6 anos, uma criança precisa de algo que nenhuma agenda sofisticada consegue oferecer:


tempo para ser criança.


Tempo para brincar.

Para conversar.

Para errar.

Para tentar novamente.

Para ficar entediada.

Para descobrir o mundo.

Para receber um limite.

Para sentir-se amada mesmo depois de uma birra.

Talvez preparar uma criança para a vida não seja ensinar tudo mais cedo.

Talvez seja construir, com ela, as bases emocionais que permitirão que continue aprendendo quando nós não estivermos por perto.

Porque a primeira infância passa.

Mas aquilo que uma criança constrói dentro de si durante esses anos pode acompanhá-la por muito tempo.



Para Levar com Você


Hoje, em vez de perguntar:


"O que mais eu preciso oferecer ao meu filho?"


Experimente perguntar:


"Existe alguma coisa que meu filho precisa que talvez eu esteja tentando substituir por atividades, objetos ou pressa?"


A resposta pode ser muito mais simples do que imaginamos.

Às vezes, é tempo.

Às vezes, é limite.

Às vezes, é brincadeira.

E, muitas vezes, é simplesmente presença.




Shirlaine Paduin

Educadora há mais de 40 anos, Mestra em Educação e doutoranda em Educação. Psicanalista e pesquisadora do desenvolvimento infantojuvenil. Mãe de três filhos — seu maior laboratório vivo — e criadora do projeto Realidade de Mãe, onde compartilha reflexões sobre primeira infância, desenvolvimento infantil, educação, maternidade e os desafios reais da formação humana.

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