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SEU FILHO NÃO PRECISA SER O MELHOR DA TURMA — MAS PRECISA APRENDER A NÃO DESISTIR

há 5 horas
5 min de leitura

mãe observa filho frustrado com os estudos

A nota chegou, seu filho tirou 6, o colega tirou 10.

Talvez a primeira reação seja perguntar:


“Mas o que aconteceu?”


Ou aquela pergunta aparentemente inocente:


“E quanto os outros tiraram?”


Queremos saber se nossos filhos estão aprendendo, se estão acompanhando a turma e, principalmente, se estamos fazendo o suficiente por eles.

Mas talvez exista uma pergunta mais importante do que saber quem tirou a maior nota:


O que seu filho faz quando percebe que não consegue alguma coisa de primeira?


Ele tenta novamente? Pede ajuda? Fica frustrado, mas continua? Ou conclui rapidamente que “não é bom nisso” e desiste?

Porque nossos filhos não serão os melhores em tudo. E talvez uma das aprendizagens mais importantes da infância seja justamente descobrir que não ser o melhor não significa não ser capaz.

E o mais importante: ele precisa aprender a não desistir.



Estamos ensinando as crianças a aprender ou apenas a acertar?

Durante muito tempo, valorizamos muito a criança que acertava...


A resposta certa.

A letra bonita.

A prova sem erros.

O primeiro lugar.

O boletim impecável.


Reconhecer uma conquista é importante. O problema aparece quando, aos poucos, a criança começa a associar seu próprio valor ao resultado que entrega.

É quando começamos a ouvir:


“Não sei desenhar.”

“Sou péssimo em matemática.”

“Todo mundo consegue, menos eu.”

“Não vou fazer porque não sei.”


Às vezes interpretamos isso como preguiça ou falta de interesse.

Mas por trás de um “não quero” também pode existir um “tenho medo de tentar e descobrir que não consigo”.

E aqui existe algo importante que a ciência do desenvolvimento nos ajuda a compreender.


O Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, explica que capacidades relacionadas à função executiva e à autorregulação — entre elas atenção, planejamento, autocontrole e flexibilidade diante das situações — não nascem prontas. Elas são construídas progressivamente e podem continuar sendo fortalecidas ao longo da infância e da adolescência.

Ou seja:

Lidar com uma dificuldade também se aprende.



Frustração não é inimiga do desenvolvimento, é aprender a não desistir.


Nenhuma mãe gosta de ver o filho frustrado.

Eu diria que esse é quase um movimento automático: vemos a dificuldade e queremos retirar a dificuldade.

Não consegue montar? Mostramos.

Esqueceu o trabalho? Levamos até a escola.

Está demorando na lição? Damos uma ajudinha que, algumas vezes, quase vira a resposta.

Teve um problema com um colega? A vontade é resolver.

Tudo isso nasce do cuidado.


Mas existe uma diferença entre acolher a frustração do filho e impedir que ele experimente qualquer frustração.


E não estou defendendo aquela velha ideia de que “a criança precisa sofrer para ficar forte”, não precisa!

Uma criança precisa de adultos que ofereçam segurança e apoio. Mas também precisa, progressivamente e de acordo com sua idade, encontrar pequenos problemas que possa tentar resolver.

Harvard usa justamente a ideia de um suporte que funciona como um “andaime”: o adulto oferece mais apoio quando a criança precisa e vai retirando essa ajuda à medida que ela consegue assumir mais daquela tarefa sozinha.

Talvez seja exatamente aí que esteja um dos nossos desafios como mães:


SABER QUANDO AJUDAR — E SABER QUANDO ESPERAR MAIS ALGUNS MINUTOS.

“MÃE, EU NÃO CONSIGO!”


Imagine uma criança diante de uma atividade difícil.

Ela tenta.

Erra.

Apaga.

Tenta outra vez.

Fica irritada.

Até que solta o lápis: “Eu não consigo!”

Podemos pegar o lápis e fazer por ela.

Podemos responder: “Mas isso é tão fácil!”

Ou podemos dizer: “Você ainda não conseguiu. O que acha que pode tentar de outro jeito?”


Existe uma palavra pequenininha nessa frase que eu gosto muito: ainda.


“Eu não consigo” parece definitivo.

“Eu ainda não consigo” permite continuidade.


E não significa elogiar tudo ou dizer que qualquer tentativa está maravilhosa.

Significa ajudar a criança a entender que existe um caminho entre não saber e aprender.

E nesse caminho cabem erro, tentativa, orientação, treino e tempo.



Quando a comparação entra dentro de casa


“Olha como sua irmã estuda.”

“Seu primo já lê sozinho.”

“Fulano tirou 9.”

“Por que você não consegue?”

Talvez muitos de nós tenhamos crescido ouvindo alguma versão dessas frases.

A comparação parece motivadora para quem fala.

Mas nem sempre é assim que ela chega à criança.

Nós dizemos:

“Você pode melhorar.”

Ela pode ouvir:

“O outro é melhor do que eu.”

Por isso, talvez seja mais saudável comparar a criança com o próprio percurso.

“O que você não conseguia fazer no começo do ano e agora consegue?”

“Onde você acha que melhorou?”

“O que aconteceu nessa prova?”

“O que você poderia fazer diferente da próxima vez?”

Perceba que não estamos retirando a responsabilidade.

Estamos mudando o ponto de referência.



E quando meu filho realmente não se esforçou?


Essa conversa também precisa existir.

Porque falar em acolhimento não significa transformar qualquer resultado em “está tudo bem”.

Se não estudou, precisa compreender a consequência.

Se deixou o trabalho para a última hora, precisa reconhecer sua participação naquele resultado.

Se poderia ter se dedicado mais, podemos — e devemos — conversar sobre isso.

Talvez uma frase possível seja:


“Essa nota não define quem você é. Mas precisamos entender o que aconteceu e o que você vai fazer diferente.”


Eu gosto dessa ideia porque ela separa duas coisas que frequentemente misturamos: resultado e identidade.

Seu filho pode ter ido mal em matemática.

Isso não significa que ele seja ruim.

Pode ter fracassado em uma tentativa.

Isso não faz dele um fracasso.



Talvez devêssemos elogiar coisas diferentes

Mãe observa filha estudar.

“Você é muito inteligente.”

“Você é o melhor.”

“Sabia que você conseguiria tirar 10.”

São frases que nascem do orgulho.

Mas podemos ampliar nosso vocabulário:


“Eu vi o quanto você se dedicou.”

“Você quase desistiu e tentou outra estratégia.”

“Dessa vez não funcionou. O que você aprendeu?”

“Você percebeu que precisava de ajuda e pediu.”


Estamos mostrando que existe algo importante entre começar uma tarefa e chegar ao resultado.

Existe um processo.



E quando eles chegam à adolescência?


Talvez seja justamente aí que percebamos o tamanho dessa aprendizagem.

Na adolescência chegam avaliações mais difíceis, vestibular, escolhas profissionais, amizades que terminam, primeiras rejeições, comparação social e, hoje, a vitrine permanente das redes sociais.

E o desenvolvimento não terminou.

Segundo o Center on the Developing Child, habilidades ligadas à autorregulação e às funções executivas continuam se desenvolvendo e sendo aprimoradas durante a adolescência e o início da vida adulta.

Isso muda um pouco nosso olhar.

Aquele adolescente que parece ter idade suficiente para “já saber lidar” com tudo ainda está desenvolvendo recursos importantes para organizar emoções, decisões, impulsos e comportamentos.

Isso não retira sua responsabilidade.

Mas nos lembra que orientação ainda é necessária — só precisa assumir outra forma.

Seu filho não precisa vencer todas

Talvez matemática seja difícil para ele.

Talvez não seja o melhor jogador do time.

Talvez outra criança leia melhor.

Talvez não passe na primeira tentativa.

E haverá situações ainda mais difíceis: mesmo tendo se esforçado, ele não conseguirá.

Essa também é a vida.

Nosso papel como pais não é fabricar filhos que nunca fracassem.

É ajudá-los a construir recursos para que um fracasso não se transforme em uma definição sobre quem são.

Porque haverá provas sem nota 10.

Portas que não abrirão.

Pessoas que dirão não.

Planos que darão errado.

E situações em que alguém será melhor.

Talvez, então, uma pergunta importante para fazermos aos nossos filhos não seja:


“Você foi o melhor?”


Mas:


“Quando ficou difícil, o que você fez?”


Seu filho não precisa acreditar que sempre vencerá.

Precisa descobrir que pode errar, frustrar-se, pedir ajuda, reorganizar-se e tentar novamente.

E talvez essa seja uma das aprendizagens mais importantes que nenhum boletim consegue medir.





Shirlaine Paduin

É educadora há mais de 40 anos, Mestra e doutoranda em Educação, psicanalista e pesquisadora do desenvolvimento infantojuvenil. Sua trajetória reúne educação, gestão escolar e trabalho com crianças, adolescentes, famílias e educadores. Mãe de três filhos e idealizadora do projeto Realidade de Mãe, escreve sobre desenvolvimento humano, maternidade, relações familiares e os desafios reais de educar.

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