Seu Filho Tem Medo de Errar? Talvez Ele Esteja Tentando Ser Bom Demais Para Você

“Mãe, você vai ficar brava se eu te contar uma coisa?”
A prova ainda nem saiu da mochila.
Você não sabe a nota. Não sabe o que aconteceu. Mas aquela pergunta já diz alguma coisa.
Talvez o problema não seja apenas a prova.
Talvez seu filho esteja tentando descobrir se continuará sendo visto da mesma maneira depois de contar que não foi tão bem quanto esperava, fica a sensação de que seu filho tem medo de errar.
E isso nos coloca diante de uma pergunta desconfortável:
Será que nossos filhos têm medo de errar — ou medo de nos decepcionar quando erram?
Nenhuma mãe acorda pensando: “Hoje vou fazer meu filho acreditar que precisa ser perfeito.”
Não fazemos isso.
Queremos que estudem. Que se esforcem. Que sejam responsáveis. Que aproveitem oportunidades que talvez nós mesmas não tenhamos tido.
O problema é que, entre aquilo que queremos ensinar e aquilo que nossos filhos entendem, às vezes existe uma distância enorme.
Quando querer acertar deixa de ser apenas uma qualidade e leva ao medo de errar.
Existe algo bonito em querer fazer bem.
Uma criança que se dedica, refaz uma atividade ou deseja melhorar está desenvolvendo compromisso e responsabilidade.
O problema não está em buscar bons resultados.
Está no que acontece quando o resultado não vem.
Seu filho rasga o desenho porque uma linha ficou torta?
Evita responder na sala mesmo sabendo a matéria?
Chora excessivamente por uma nota que não foi ruim?
Não quer experimentar uma atividade nova porque talvez não consiga?
Apaga uma palavra inúmeras vezes porque a letra “não ficou perfeita”?
Ou pergunta frequentemente: “Você ficou decepcionada comigo?”
Talvez não estejamos mais falando apenas de capricho.
A literatura científica faz uma distinção importante: existem aspectos do perfeccionismo ligados à busca por padrões elevados, mas existem também as chamadas preocupações perfeccionistas, marcadas pelo medo excessivo de cometer erros, dúvidas sobre o próprio desempenho e preocupação com avaliações externas. Pesquisas com crianças e adolescentes mostram que essas dimensões não são exatamente a mesma coisa.
Querer fazer bem é diferente de acreditar que não se pode errar.
“Mas eu nunca disse que ele precisava tirar 10”
Talvez não tenha dito.
E provavelmente nunca tenha dito que só o amaria se ele fosse o melhor.
Mas crianças não aprendem apenas com aquilo que dizemos explicitamente.
Elas também observam nossas expressões.
Nosso entusiasmo diante do 10.
Nossa decepção diante do 6.
A pergunta sobre quanto o colega tirou.
O comentário: “Você poderia ter ido melhor.”
Ou: “Mas você sabia essa matéria!”
Nada disso transforma automaticamente uma criança em perfeccionista.
Seria injusto e cientificamente incorreto colocar essa responsabilidade inteira sobre os pais.
O desenvolvimento emocional é resultado de muitos fatores: características individuais, relações familiares, escola, experiências sociais, cultura, pares e, especialmente na adolescência, um universo enorme de comparações.
Mas os pais fazem parte desse ambiente.
Uma ampla meta-análise publicada em 2022 encontrou associações entre expectativas e críticas parentais percebidas pelos jovens e diferentes dimensões do perfeccionismo. Os próprios pesquisadores ressaltam que o fenômeno é complexo e ocorre em um contexto social cada vez mais competitivo.
Isso não significa que devemos parar de esperar coisas dos nossos filhos.
Significa que precisamos observar como nossas expectativas chegam até eles.
Expectativa não é o problema
Talvez este seja o ponto mais importante deste texto.
Seu filho precisa perceber que você acredita em sua capacidade.
Precisa aprender responsabilidade.
Precisa ouvir: “Você consegue fazer melhor.”
Precisa, algumas vezes, ser chamado à responsabilidade quando não estudou, não cumpriu um combinado ou desistiu simplesmente porque ficou difícil.
Acolher não significa retirar expectativas.
Pesquisas recentes reforçam justamente essa nuance: expectativas parentais podem estar relacionadas tanto a padrões pessoais positivos quanto a preocupações excessivas com erros, dependendo de como são percebidas e do contexto em que são comunicadas. Ambientes que apoiam mais a autonomia podem produzir experiências diferentes daqueles marcados predominantemente por crítica ou expectativas percebidas como inalcançáveis.
Portanto, talvez a pergunta não seja: “Devo cobrar meu filho?”
Mas: “O que meu filho entende quando eu cobro?”
Ele entende: “Minha mãe acredita que eu consigo”?
Ou: “Só posso decepcioná-la se não conseguir”?
Há uma diferença enorme entre as duas mensagens.
O filho que tenta ser “bom demais”
Existe uma criança que preocupa porque desafia.
Mas existe outra que pode passar despercebida justamente porque não dá trabalho.
Ela quer agradar.
Tira boas notas.
Cumpre as tarefas.
Pede desculpas rapidamente.
Preocupa-se com o que os adultos pensarão.
Fica profundamente incomodada quando erra.
Por fora, pode parecer apenas uma criança extremamente responsável.
Por dentro, talvez esteja construindo uma ideia perigosa:
“Para que gostem de mim, preciso acertar.”
Não estou dizendo que toda criança responsável esconda sofrimento. Evidentemente, não.
Estou dizendo apenas que comportamento exemplar também merece ser compreendido, e não somente elogiado.
Às vezes precisamos perguntar ao filho que sempre vai bem:
“O que acontece dentro de você quando alguma coisa dá errado?”
Talvez a resposta nos surpreenda.
E então chega a adolescência
Na adolescência, o cenário fica ainda mais complexo.
Já não existe apenas a expectativa da família.
Existe a escola. O vestibular. O esporte. O corpo. Os amigos. As redes sociais. A escolha profissional. A necessidade de pertencer.
E uma vitrine permanente mostrando pessoas aparentemente mais bonitas, mais felizes, mais populares e mais bem-sucedidas.
Pesquisas sobre perfeccionismo juvenil reconhecem infância e adolescência como períodos importantes para compreender o desenvolvimento dessas características, inclusive pela influência das relações familiares e sociais.
Imagine, então, o peso de um adolescente que acredita:
“Eu não posso decepcionar ninguém.”
É muita coisa para carregar.
O que dizer quando seu filho erra ou tem medo de errar?
Talvez não precisemos de grandes discursos.
Podemos começar mudando algumas perguntas.
Em vez de: “Como você conseguiu errar isso?”
Experimente: “O que aconteceu?”
Em vez de: “Seu amigo conseguiu.”
Pergunte: “Onde você encontrou dificuldade?”
Em vez de correr para resolver:
“O que você acha que pode tentar agora?”
E quando houver realmente falta de esforço:
“Eu amo você independentemente dessa nota. Mas precisamos conversar sobre a responsabilidade que você teve nesse resultado.”
Essa frase guarda duas mensagens que deveriam conseguir coexistir:
Amor não depende de desempenho; responsabilidade continua existindo.
Talvez nossos filhos precisem nos ver errando também
Existe ainda outra forma silenciosa de ensinar.
Como você reage quando erra?
Você se chama de burra? Fica furiosa consigo mesma? Precisa que tudo saia perfeito? Tem dificuldade de admitir que não sabe? Refaz alguma coisa inúmeras vezes porque nunca considera suficientemente boa?
Nossos filhos observam muito mais do que imaginamos.
Talvez ensinar uma relação saudável com o erro também passe por conseguir dizer diante deles:
“Eu errei.”
“Não sei.”
“Vou tentar novamente.”
“Preciso de ajuda.”
Sem vergonha.
Porque uma criança que nunca vê os adultos errando pode imaginar que crescer significa finalmente aprender a acertar tudo.
E nós sabemos que não é assim.
Seu filho não precisa ser perfeito para você
Talvez hoje ele traga um 10.
Amanhã, um 5.
Talvez seja excelente em matemática e tenha enorme dificuldade para fazer amigos.
Talvez seja brilhante no esporte e demore mais para aprender a ler.
Talvez seja aquele aluno que nunca dá trabalho.
Ou justamente aquele que exige de você uma paciência que você nem sabia que precisaria ter.
Nenhum resultado isolado conta a história inteira de uma criança.
Nosso papel não é convencer nossos filhos de que são maravilhosos em tudo.
Eles não são.
Nós também não somos.
Nosso papel talvez seja ajudá-los a descobrir algo muito mais verdadeiro:
“Eu posso não conseguir. Posso errar. Posso precisar aprender. E continuo tendo valor.”
Por isso, da próxima vez que seu filho chegar com aquela expressão preocupada e perguntar: “Mãe, você vai ficar brava?”
Talvez, antes de perguntar o que aconteceu, exista uma resposta que ele precise ouvir:
“Pode me contar.”
Porque quando uma criança sabe que pode contar inclusive aquilo que deu errado, nós não estamos ensinando apenas sobre notas.
Estamos construindo confiança.
E confiança talvez seja uma das poucas coisas que nossos filhos realmente precisarão levar de casa para a vida inteira.
Sobre a autora
Shirlaine Paduin é educadora há mais de 40 anos, Mestra e doutoranda em Educação, psicanalista e pesquisadora do desenvolvimento infantojuvenil. Sua trajetória reúne educação, gestão escolar e trabalho com crianças, adolescentes, famílias e educadores. Mãe de três filhos e idealizadora do projeto Realidade de Mãe, escreve sobre desenvolvimento humano, maternidade, relações familiares e os desafios reais de educar
































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