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Seu Filho faz Birra Porque é Mimado? Talvez a Pergunta Esteja Errada

há 11 minutos
6 min de leitura

Mãe conforta menina pequena chorando, com laço rosa e vestido floral, em ambiente doméstico claro e acolhedor.

Antes de chamar uma criança de mimada, precisamos compreender o que ela está tentando comunicar — e o que ainda não consegue administrar sozinha.


“Eu quero esse brinquedo!”

“Hoje não, filho.”

“MAS EU QUERO!”


O choro começa. A criança se joga no chão. A mãe tenta conversar, mas parece que nada funciona.

Algumas pessoas olham. Outras balançam a cabeça. E sempre existe alguém disposto a oferecer um conselho:

“Isso é falta de limite.”

“Se fosse meu filho, não faria isso.”

“Essa criança está muito mimada.”

A mãe, que já estava tentando administrar a situação, agora precisa lidar também com os olhares, o constrangimento e aquela sensação de que todos estão avaliando sua capacidade de educar.

Mas será que uma criança que faz birra é necessariamente uma criança mimada?

Ou será que estamos esperando de uma criança pequena uma capacidade emocional que ela ainda está aprendendo a desenvolver?

Essa pergunta não significa justificar todos os comportamentos infantis. Significa compreender o desenvolvimento antes de decidir como agir.



A BIRRA NEM SEMPRE É SOBRE O BRINQUEDO


Imagine uma criança de três anos que passou a manhã inteira na escola.

Brincou, correu, participou das atividades e precisou seguir uma rotina. Depois, acompanhou a mãe ao supermercado.

Está cansada. Talvez com fome. Há barulho, luzes, pessoas circulando e produtos coloridos por todos os lados.

De repente, vê um chocolate.

Pede.

A mãe diz não.

E acontece a explosão.

Para quem observa, parece simples: uma criança que não aceita uma negativa.

Mas, para compreender a situação, precisamos olhar além daquele último pedido.

Na primeira infância, habilidades como controlar impulsos, esperar, lidar com frustrações e regular emoções ainda estão em desenvolvimento.

Isso significa que a criança pode sentir uma emoção muito intensa sem conseguir organizá-la ou expressá-la de maneira adequada.

E existe uma diferença importante entre sentir raiva e saber o que fazer com ela.

A criança pode aprender que não receberá o chocolate. Mas talvez ainda precise da ajuda de um adulto para atravessar a frustração provocada por essa negativa.


O CÉREBRO INFANTIL NÃO FUNCIONA COMO O NOSSO


Você já percebeu como, às vezes, tentamos convencer uma criança de três anos utilizando argumentos que faríamos com um adolescente?

“Você precisa compreender que não podemos comprar tudo o que queremos.”

“Já conversamos sobre isso.”

“Você sabe que não pode agir assim.”

Tudo isso pode fazer sentido para nós.

Mas, no auge de uma crise emocional, uma criança pequena pode ter dificuldade para prestar atenção, organizar o pensamento e responder a explicações longas.

O desenvolvimento das chamadas funções executivas — habilidades relacionadas à atenção, ao controle dos impulsos, à flexibilidade mental e à autorregulação — acontece progressivamente ao longo da infância e continua amadurecendo depois dela.

O Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, explica que essas capacidades não nascem prontas. Elas se desenvolvem por meio da maturação e das experiências, especialmente nas interações com adultos que oferecem apoio e oportunidades de aprendizagem.

Isso não significa que a criança não tenha responsabilidade alguma por seus comportamentos.

Significa que não podemos exigir independência emocional completa de alguém que ainda está aprendendo a desenvolvê-la.

E aqui entra uma questão fundamental: se a criança ainda não sabe lidar com determinada emoção, quem vai ajudá-la a aprender?


MAS ENTÃO DEVEMOS PERMITIR QUE A CRIANÇA FAÇA TUDO O QUE QUISER?


Não.

E talvez esse seja um dos maiores equívocos nas discussões atuais sobre educação infantil.

Compreender uma birra não significa atender ao pedido que a provocou.

Acolher o choro não significa retirar o limite.

Respeitar a emoção não significa aceitar agressões.

Uma criança pode ficar profundamente frustrada porque não recebeu um brinquedo e, ainda assim, não receber o brinquedo.

Pode chorar porque precisa desligar a televisão e, mesmo assim, a televisão permanecer desligada.

Pode sentir raiva do irmão e, ainda assim, não ter permissão para bater nele.

O sentimento pode ser acolhido. O comportamento precisa ser orientado.

Talvez uma das frases mais importantes que possamos aprender a dizer seja:

“Eu sei que você ficou bravo porque queria muito isso. Mas hoje não vamos comprar.”

Sem humilhação.

Sem ameaças.

Sem transformar a negativa em uma disputa para descobrir quem vence.

O adulto continua sendo responsável pelo limite, mesmo quando a criança não gosta dele.


E QUANDO A BIRRA ACONTECE NA FRENTE DE TODO MUNDO?

Mãe agachada consola menino emburrado numa loja de brinquedos, entre prateleiras coloridas.

Aqui existe algo que raramente aparece nos conselhos sobre educação: o constrangimento dos pais.

É muito mais fácil falar sobre paciência quando estamos em casa, tranquilos, sem ninguém observando.

Mas, no meio de uma loja, com pessoas olhando e compromissos esperando, a situação muda.

Às vezes, o adulto não está reagindo apenas à criança.

Está reagindo ao julgamento que imagina receber.

E, na tentativa de interromper rapidamente aquela cena, pode acabar gritando, ameaçando ou cedendo a algo que havia decidido não permitir.

Nenhuma dessas reações precisa definir uma mãe.

Mas vale observar o que estamos ensinando quando a birra acontece.

Se a criança aprende repetidamente que gritar é a maneira mais eficiente de conseguir alguma coisa, esse comportamento pode se fortalecer.

Por outro lado, se toda manifestação de frustração recebe uma resposta agressiva, a criança também perde oportunidades de aprender formas mais adequadas de expressar o que sente.

Por isso, antes de pensar em fazer o choro parar, talvez seja mais útil perguntar:

“O que meu filho precisa aprender com esta situação?”

A resposta nem sempre será conseguir o que deseja.

Muitas vezes, será aprender que pode desejar intensamente alguma coisa, não recebê-la e, com apoio, conseguir se reorganizar.


EXISTEM BIRRAS QUE PRECISAM DE UM OLHAR MAIS ATENTO?


Sim.

Nem toda crise emocional tem a mesma origem, frequência ou intensidade.

Algumas crianças apresentam maior sensibilidade a barulhos, mudanças de rotina, ambientes movimentados ou determinadas experiências sensoriais.

Outras podem ter dificuldades de comunicação ou necessidades específicas de desenvolvimento.

Também é importante observar se as crises são muito frequentes, intensas, prolongadas, provocam riscos à segurança ou prejudicam significativamente a rotina da criança e da família.

Nessas situações, vale conversar com o pediatra e, quando necessário, buscar uma avaliação profissional.

Uma birra isolada não permite diagnosticar uma criança. E atribuir automaticamente todos os episódios à falta de limites também pode impedir que necessidades importantes sejam reconhecidas.

O comportamento precisa ser compreendido dentro da história e do desenvolvimento de cada criança.


O QUE UMA MÃE PODE FAZER DURANTE UMA BIRRA?


Não existe uma frase mágica capaz de interromper todas as crises. Mas algumas atitudes podem ajudar.


  • Primeiro, observe a segurança. Se a criança estiver tentando bater, se machucar ou lançar objetos, intervenha com firmeza e tranquilidade.

  • Fale menos durante o auge da crise. Explicações longas costumam funcionar melhor depois que a criança se acalma.

  • Reconheça o sentimento sem negociar automaticamente o limite. “Você queria muito continuar brincando. Eu entendo. Mas agora precisamos sair.”

  • Ofereça escolhas possíveis. “Você quer guardar os brinquedos sozinho ou quer minha ajuda?”

  • Converse depois. Quando a criança estiver tranquila, ajude-a a encontrar palavras e outras formas de expressar sua frustração.


A Academia Americana de Pediatria recomenda regras claras, respostas consistentes, prevenção de situações como fome e cansaço e ensino gradual de comportamentos mais adequados.

E precisamos reconhecer algo: nem sempre conseguiremos agir com toda essa tranquilidade.

Mães também ficam cansadas, frustradas e sobrecarregadas.

Quando o adulto perde a paciência, pode reconhecer o próprio erro e retomar a orientação. Isso também ensina.


TALVEZ A PERGUNTA ESTEJA REALMENTE ERRADA


Durante muitos anos, acostumamo-nos a dividir as crianças em duas categorias:

  • As bem-educadas e as mal-educadas.

  • As obedientes e as difíceis.

  • As tranquilas e as mimadas.

Mas o desenvolvimento humano é muito mais complexo do que esses rótulos.

Uma criança que faz birra pode estar testando limites. Pode estar cansada. Pode ter dificuldade para comunicar uma necessidade. Pode estar aprendendo a lidar com uma frustração ou precisar de uma intervenção mais específica.

E sim, pode também ter aprendido que determinados comportamentos fazem os adultos cederem.

Uma possibilidade não elimina a outra.

Por isso, talvez a pergunta mais produtiva não seja:

“Meu filho é mimado?”

Mas:

“O que está acontecendo, o que ele ainda precisa aprender e como posso ensiná-lo sem perder meu papel de adulto?”

Porque educar uma criança não significa conseguir que ela nunca chore diante de um não.

Significa ajudá-la, pouco a pouco, a compreender que a vida terá negativas, esperas, regras e frustrações — e que ela poderá aprender a lidar com tudo isso.

Uma criança não precisa gostar de todos os limites para aprender a respeitá-los.

E uma mãe não precisa vencer todas as birras para estar educando seu filho.

Talvez a verdadeira conquista aconteça quando, depois de tantas experiências, aquela criança que antes gritava diante de uma negativa começa a conseguir dizer:

“Mãe, eu fiquei muito bravo.”

E encontra um adulto capaz de responder:

“Eu sei. Vamos conversar.”





Shirlaine Paduin

Educadora há mais de 40 anos, Mestra e doutoranda em Educação, psicanalista e pesquisadora do desenvolvimento infantojuvenil. Sua trajetória reúne educação, gestão escolar e trabalho com crianças, adolescentes, famílias e educadores. Mãe de três filhos e idealizadora do projeto Realidade de Mãe, escreve sobre desenvolvimento humano, maternidade, relações familiares e os desafios reais de educar.


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